quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Das andanças pelo Ceará - A importância de falar, a sabedoria de ouvir

Por Vanessa Campos

Sempre gostei de discursos, de conversas longas e de debater ideias. A palavra tem muita força, é um fato. Não precisa falar difícil, basta que seja verdade e tenha clareza. É o suficiente para transformar a vida de alguém. Mesmo que nem se saiba disso.

Nessas tantas viagens que faço, um ponto em comum nos lugares todos é a disposição das pessoas em ouvir. Lotam praças, caminham lado a lado com os visitantes, às vezes debaixo do sol quente. Não arredam pé. Curiosa, observo como recebem as palavras.

Dia desses, em uma das cidades que visitamos, havia olhares receosos. Uma senhora me disse com voz baixinha como quem confessa um segredo, que estavam acostumados a não ter diálogo por ali. Esperava silenciosa na sombra de uma árvore para ver o que aconteceria. Disse que era velha, mas tinha esperança. “Mas esperança depende de idade não”, respondi. “Ah, minha filha, depende do coração, não é?”, falou com um meio sorriso. Acho que sim, penso eu.

Foi nesse dia que consegui visualizar aquilo a que chamam de epifania*. Democracia, liberdade, defesa, escolhas. Palavras ditas e compreendidas pela multidão que ouvia. Palavras que se fortalecem com as ações já feitas e abrem um horizonte novo para quem estava tão acostumado a imposições. Perguntei a senhorinha o que ela estava sentindo. Disse, meio atropelando as palavras, “a garganta desapertou, minha filha, agora eu falo e eles também me escutam”. Olhou pra mim com a vista marejada, marejei também.

*De acordo com a Wikipédia, epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência ou do significado de algo. O termo é usado nos sentidos filosófico e literal para indicar que alguém "encontrou finalmente a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem completa" do problema.





2 comentários:

  1. Emocionante!
    Flávio Dias

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  2. Vanessa Campos, como sempre brincando com as palavras e emocionando seus fãs.
    Um beijo, Claudia Barbosa.

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